Um homem bateu a minha porta.
Este não tinha cor, idade ou até dignidade, embora, talvez eu nunca pudesse afirmar isso com tamanha certeza. Seu olhar era triste, seu cabelo era bem ralo quase inexistente e sobre seus ombros havia o peso da meia idade e quem sabe, por causa disso ele sempre estava curvado como tronco de árvore velha cansada de lutar contra as adversidades da vida.
Porém o que me marcou foram as terríveis tatuagem da vida que ele possuía junto com as marcas de dor, angústia, fome... miséria.
Roupas ele não as tinha, a não ser um trapo que lhe cobria da cintura pra baixo, e os ossos de suas pernas eram saltados quase dando pra ver a cor deles e eram tão finas quase como as do sabiá.
Ele sorri. Mas era um sorriso de tristeza e não de alegria como o da maioria das pessoas.
Ele me pede comida. Só que eu não tenho comida, esses são os tempos difíceis, então saímos a procura de algo, e achamos, é uma linda e frondosa árvore com pêras com de caqui e quando a pegamos, elas estão podres, sem vida... porém a fome era tanta que comemos as pêras amargas.
Depois disso viramos amigos, não, viramos grandes amigos sem nome!
O tempo passa, tudo passa, e na escuridão vejo a luz de um espelho refletindo a minha imagem, a nossa imagem que antes fora juvenil e que agora não passa de migalhas deixadas para pombos de beco.
Ele vai embora pra sempre. E quando vejo a minha imagem no espelho percebo que eu sou ele, mais um massacrado pela vida. Não tive uma oportunidade de aproveita-la, para mim ela passou tão rápido e amargo quanto...
